I wish U were here

Hoje eu acordei sem nada no estômago, sem ter para onde correr, sem colo, sem peito, sem ter onde encostar, sem ter quem culpar. Hoje eu acordei, contradizendo o marasmo, oca de ódio, morta de ciúme. Com o coração tão bagunçado quanto meu cabelo. E mesmo assim a única vontade que eu tive foi você.

Entender essa merda toda que é te querer. Fiz café tentando justificar pra mim como é que fui te amar sem te conhecer. Como pude gostar de você sem saber como você dobra as camisas no armário. Como fui te querer tanto bem sem passar um dia inteiro fazendo nada com você. Como posso até agora não conseguir te chamar de ex. Como pude deixar as coisas chegarem onde chegaram. Onde eu estava com minha cabeça? Por quê mesmo com todos os motivos para desistir tudo o que quero é fazer você se arrepender. Não de mim, não de nós, mas por nós, de escolher toda essa estranhez.

Parte das perguntas cessaram quando senti um frio absurdo nos pés e enquanto calçava minhas meias coloridas por cima das com as quais dormi, rindo sozinha da cena esdrúxula, pensei em te ligar e pedir descaradamente pra largar tudo e vir ficar comigo. O leite ferveu sujando o fogão, me distraí limpando e reclamando da sujeira. Talvez tenha sido melhor assim. Outro "não dá" em menos de 24 horas poderia acabar com todo o romantismo que tento nutrir por nossa história - e talvez esse seja meu grande mal.

Pensei se vai haver o dia que finalmente você vai discar o meu número e ele estará ocupado demais ou nem será mais o mesmo, ou até eu nem queira mais te atender. E se você bater na minha porta, e ela estará muito trancada, se aberta, mostrará uma casa sem espaço para te acomodar. Será que seus olhos se encherão de lágrimas? Pronto, lá estavam as perguntas novamente.

Misturei o café ao leite com o açúcar de um lado para o outro trocentas mil vezes e como sempre querendo romantizar meus dramas desejei profundamente que sim, eles se enchessem. Que você sentisse um enjoo, que na verdade fosse o arrependimento por não ter me permitido ser absolutamente nada do que eu poderia ter sido - e tenho pra mim que eu poderia ter sido foda. (foda boa! - com direito a orgasmos múltiplos)

E num momento de ódio, que houvesse falta de fome e apatia, traduzindo a tristeza. Então quando os dias passassem e eu não te ligasse, quando nada de bom te acontecesse e ninguém te olhasse com meus olhos encantados, que eu sei que brilham, quando te enxergam.Você encontrasse a famosa solidão. Sentisse o vazio com o qual eu acordei e desejasse explodir seus sentimentos.

O problema é que meu ódio dura só o tempo que tomo meu café da manhã. Você fica online. A gente se pertuba e como sempre, parte passa, parte fica; fato é que amansa o ódio. E eu sei que você me esconde alguma coisa. Ou tudo. Sei que você mente também. E sei que a gente se atura porque perder pessoas é muito triste. E talvez o grande romance entre nós dois seja justamente o fato de não sabermos como dobramos nossas camisas, como passamos o tempo fazendo nada; será que é essa mágica? Será que é essa liberdade maluca que nos prende? Eu não sei. Só queria ter ou ter tido (?) a chance dessa certeza.

No final das contas, mesmo que eu tenha uma séria desconfiança que você é assim vida real afora, desses tipos sacanas e safados, você se faz diferente pra mim, comigo. Mesmo que você não venha me encoxar no meio da noite, não me agarre no corredor quando a gente se esbarra, não fale no meu ouvido o quanto você está precisando me comer naquele momento, nem responda meu email cheio de segundas intenções com alguma sacanagem; Por mais que você não se faça desse tipo comigo, você respira quentinho ao meu lado enquanto dorme, lindo.

É o único momento do dia que fico completamente paralisada e quase em paz.  Você parece tão em paz. Tão quietinho, até quando sai do seu mundinho, lembra que tô ali abraçada a você, encaixada no seu ombro, me olha e diz "Fica na moral, fica?!". E eu, que sei que não abalo em nada a sua vida, sinto que por seis, oito horas você é meu. E é por isso que apesar de gostar do sexo que fazemos  ando sentindo falta mesmo é de dormir uma noite inteira ao seu lado e acordar me sentindo a pessoa mais idiota e mais plena do mundo. Por que mesmo sabendo que não sou nada, enquanto durmo me sinto tua, me sinto tudo.

Eu queria que você estivesse aqui toda vez que vejo certas coisas que me dão impressão de que , no fundo, não somos tão felizes distantes quanto poderiamos se juntos de verdade. E acredito muito que poderíamos combinar a felicidade real somada à felicidade aparente. Fato é que eu nunca vou entender porque a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente possa estar um ao lado do outro. Eu nunca vou entender essa budega que só você não enxerga que você pode ser exatamente o que eu quero, e eu o que você quer. Me pergunto, então, o que explica nossas exatidões não funcionarem como uma conta de mais, simples, como onde 1+1 = 2.

Talvez nada disso importe. Talvez você resolva se importar mesmo que eu pareça tentar não me importar. Quem sabe você me mande um sms querendo saber se tá de pé a correção do não que me deu e eu, sem muita escolha, aceitei, pra não ficar sem o pouco de você que ainda me resta.

Se não... daqui uns dias... você vai ressurgir das cinzas. Dando um sinal de vida qualquer, demonstrando um sentimento qualquer, querendo me esconder da tua vida como sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse nosso amor bandido. Me querendo no escuro.

E talvez eu tope. Não porque eu seja uma babaca, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo, nos permitindo.

Ou será que não?

Comentários

  1. Nossa, Aline. Você é surreal! Você, em seus textos, não é mais uma que fala de relacionamento e o analisa, você retrata o real lado de uma vida a dois, ou a tentativa de...

    Você descreve toda os nossos conflitos internos sobre a luta de nos preservar ou ao nosso sentimento. Me identifico muito com os textos e acredito que a maioria das mulheres também. Pode não ser no mesmo momento, mas com certeza já vivenciamos algo assim.

    Parabéns mais uma vez pelo amor e o talento!

    Beijo grande! Ana

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    1. ô Aninha! Obrigada pelo carinho; você sempre incentivando e apoiando os textos... ou seriam loucuras, pérolas, desejos e devaneios; ou pior, esse amor inspirador.
      Beijo!

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  2. Só digo que me identifico por d+ com seus textos... Pq será?! hihi...

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