A inexplicável saudade do que não vivi

Às vezes eu sinto saudade do que nem sequer vivi. Às vezes do que vivi, mas não de com quem. Não mesmo. E mesmo assim dói absurdamente, dói tanto que sufoca e mesmo não sofrendo de asma pareço puxar e não sentir o ar entrar.

No fundo uma música qualquer que se eterniza e ecoará por dias. Tento me acalmar, justificando para mim que tudo bem, que está tudo bem, que vai ficar tudo bem, que vai passar. Confirmo mais uma vez que não é saudade de com quem, não pode ser. Choro. Dói. Sinto. 

A saudade abre o canto das memórias. Das perguntas. Das respostas. A saudade me vira de ponta-cabeça, como se minha vida fosse uma montanha russa com trocentos mil loopings. Lembro de cheiros e sabores. Lembro de sons e toques. Inevitavelmente me lembro dele. Dele com quem vivi tanto. Lembro de você. De você com quem não vivi nada.

Nessa hora acaba a música, sinto medo e arrependimento. E apesar dela, dessa insana saudade da segurança, confiança e certezas, que as lembranças me despertaram, uma lógica profunda me invade. A de que não temos garantia nenhuma de nada. Tanta presença. Tantos planos. Tantas perguntas e respostas. Falatório. Tantas viagens e finais de semana. Tanta união e, no entanto, agora, é tudo lembrança. Tudo passou.

Veio você. Medo. Insegurança. Desconfiança. Incertezas. A ausência mais presente que já vivi. O plano mais acordada que já sonhei. Tanta dúvida. Silêncio. E, no entanto, agora, você não passa, igual esse vazio em mim que você nunca preenche e talvez nunca vá.

A música recomeça. E tenho absoluta certeza de que não me arrependo nem por um momento de você. De nós. Dos olhares que trocamos. Das risadas. Das mãos dadas, dos abraços apertados. Aaaah, o sexo... Daquele que quando você entre um beijo, uma mordida e um puxão de cabelo, me olha com olhos que dizem o que talvez sua boca nunca me diga. Daquele que eu tenho que segurar gemidos, mas, graças à Deus, ninguém me tirou meus pensamentos e neles, pobre Deus. Aquele que eu penso quando acaba na delícia que foi e no que eu deveria ter feito pra ser ainda melhor.

E nem essa inexplicável saudade do que não vivi me tira a única certeza que você me permitiu. Eu poderia recusar recomeçar. Poderia não ter me permitido nenhuma emoção ou  sentimento. Poderia ter evitado que você colorisse meus dias cinzas. Poderia nunca ter tomado chopp e comido pastel de camarão com você – muito menos ter te feito massagem nas costas. Eu poderia ter evitado que fosse você o primeiro outro homem a entrar no meu carro, na minha casa e no meu quarto; que conhecesse minha mãe e minha sobrinha. Entre outras milhões de coisas que eu poderia ter evitado, tenho absoluta certeza.

Mas eu prefiro, ainda que aos prantos, aos trancos e barrancos, carregar comigo a certeza de que aproveitei a imperdível oportunidade de recomeçar. Talvez seja meio masoquista, mas assim me sinto viva de verdade. Sem aparelhos me mantendo viva. Sou eu. Acreditei. Tentei. Fiz. Permiti. De carne, osso e esse vazio enorme.

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