Um dia

Um dia alguém te diz que não vai a um determinado lugar pois você não foi convidado e está em casa; Você até se pergunta, então, por quê não estão juntos mas, compreensiva, se emociona, acredita. Um dia alguém te diz que vai viajar a trabalho; Você deseja boa viagem. Um dia alguém te diz que precisa desmarcar com você por que surgiu um imprevisto; Você entende. Um dia alguém não te responde, pois estava com o filho; Você se arrepende de ter sentido raiva e se preocupa.

Seis dias depois, meses, seis anos, não importa, você descobre, por uma coincidência, uma mentira. É triste, decepcionante, frustrante. Se pergunta, afinal, o quê foi verdade, e quando é que as pessoas vão entender que é ditado clichê mas muito verdadeiro quando dizem que "Mentira tem perna curta", pai do céu!

"Obrigada pela consideração, seu filho de uma puta!", é a primeira coisa que te vem à mente. Ou seria só "Filho da puta!"  - com todo o respeito à mãe, que nem tem nada com isso - ? Enfim, fica à critério. Tudo o que está doendo, mais uma vez, poderia ter sido evitado, com uma conversa franca. Com sinceridade e honestidade.

Nessa hora, mais do que nunca, você tem todo o direito, não como nada do tal "filho da puta", mas como ser humano, que independente dele você é, de questionar, de se questionar mil coisas. Coisas bobas, como, por exemplo, se o que "parecia até que eu tava tendo DR com minha aluna" num evento que vocês foram juntos, que aliás, você, sim, percebeu o tempo todo estar sendo tratada feito um zero à esquerda, não era realmente uma DR?

Ser humano que é, você se pergunta, inclusive, se a errada é você de ter aparecido na história, afinal você já se conformou que nunca saberá quem nasceu antes... A vaca ou a corna. Se pergunta se ele mentia pra você por causa dela, ou pra ela por causa de você e no final das contas vê que isso pouco importa, afinal, quem mente para uma, mente para duas.

"Meu Deus!" você se pergunta: "Qual bicho sou nesse zoológico?" Sim, porque o "filho da puta" é na verdade uma anta, um burro! O cara perdeu a chance de conviver ao lado de uma pessoa que tenta ser o novo Dalai Lama, apesar de todos os monstros que tem que matar diariamente dentro de si para isso.

"Será mesmo que todas as vezes que não pudemos estar juntos realmente não pudemos ou ele apenas não queria ou me trocou?", você se questiona tentando entender o que viveu, aliás, o que tá vivendo, esse tormento de emoções e sentimentos. E é essa busca que dói, arreganha a ferida. O monstro da Tasmânia que vive em você quer dar na cara dele, esfregar fotos, gritar. Do outro lado, o teu Dalai, mesmo que fajuto ainda, te amansa, te consola. Te faz entender que essa busca por entender o outro e aprimorar suas ações, um dia, te fará um ser humano melhor.

Mas não importa. Você lembra da sensação quando viu o "casal" no dia do evento "discutindo", da vontade que teve de abrir um buraco no chão e ao mesmo tempo interromper o casalzinho, fazer a suburbana e soltar um "Que porra é essa, caralho!?!", cheio de emoção e indignação que lhe cabia naquele momento. O que te restou foi sair correndo tentando se esconder da vergonha que sentiu de ser tão desrespeitada e menosprezada. Você prestes a ir embora veio ele perguntando onde você ia. Por respeito, a ele, embora ele tivesse lhe faltado, ao evento organizado por pessoas do trabalho dele, respirou fundo, matou o monstro e deixou Dalai agir. Tremia por dentro. Suava frio por fora.

Desde ali, sem medo de ser injusta, você começa a perceber que em matéria de confiança, segurança, respostas e certezas, você o sobraria e numa lógica, ele te faltaria se nada mudasse. Comprovado, querida, não mudou. E ainda assim muito provavelmente ele nunca te dará a verdade, as respostas de todas as perguntas que você já o fez, como num email que escreveu e até citou numa conversa recente. Você terá que escolher, sobreviver ou viver com isso.

A ideia deve ser apenas uma, que mesmo assim, ele nunca te faça se arrepender de ter o dado a sua verdade, o melhor que pode ser, sua tentativa, seu esforço em ser alguém que marcasse a vida dele, abalasse positivamente, fosse especial e principalmente, ficasse nela.

E, por favor, que ele nesse momento não se sinta mal, se é que sentirá algo. Seja ofendido ou magoado. Afinal, ele nunca vai te fazer se arrepender de ter o oferecido amor mesmo que ele não tenha sabido recebê-lo e vivê-lo; mesmo, quem sabe se ele não tiver o merecido. Ele nunca vai te fazer se arrepender de ter o olhado com olhos de esperança e ter o dado abraços confiando nele. Ele não tem culpa de você ter se permitido acreditar.

Com o tempo você vai parar de imaginar o quanto trabalhoso deve ser ter que viver inventando mentiras. Ou pior que isso, o quanto deve ser triste. Com o tempo, também, você vai se orgulhar ainda mais de nunca ter precisado fazer ninguém de otário para se sentir foda. E se no dia que você quis fazer surpresa para ele, ele tiver que ter saído correndo da casa dela ou do bar com ela, pouco importa; Talvez um dia ela sinta na pele, se ainda não sentiu, o que você está sentindo agora.

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