::: la vraie beauté vient du coeur :::

Estava eu lendo para dois pequenos, me olhavam com olhos de admiração que me deixaram inquieta, nervosa, tímida, entre uma página e outra pensei no quê, afinal, aqueles olhares queriam me dizer. Parei a leitura e perguntei sobre a vida deles. Achei que isso era mais importante que simplesmente contar-lhes uma estória "qualquer".

Sofia e Davi surpresos com minha preocupação vieram para meu colo e falaram sem parar por 30 minutos. Sobre a casa "pobrinha", a mamãe que chora escondida, o papai que trabalha sem parar... Sofia me fez sentir-me uma formiga. "Tia Aline, a gente fica "lendo" essas histórinhas para boi dormir mas a nossa vida é muito diferente disso". A frase apunhalou meu coração, doeu na minha alma. Com cinco e sete anos, respectivamente, essas crianças já estão feridas, marcadas, frustadas. A inocência está perdida.

Tive vontade de sair correndo daquela sala e fuzilar todos os males do mundo. A pobreza, a falta de educação, de oportunidade de emprego, de saúde. Em dias de trabalho voluntário eu fico assim, pensando na vida, nas coisas realmente importantes e esqueço o que a mente vazia me faz pensar. Penso na dor de das famílias dessas e tantas outras crianças, dos sonhos interrompidos... nos sonhos sequer sonhados.

Ela bate na porta, pede licença "dona Aline".  Ela com os olhos marejados e eu com o peito apertado. Alice, quase o mesmo nome que o meu. 27 anos, quase a mesma idade que eu. Filha de pais separados e de um pai doente; somos duas. Levei as crianças a outro ponto da sala, deixei que brincassem no cantinho, sozinhas. Conversamos por duas horas sem sermos interrompidas pelas crianças mas pelas lágrimas. Dela e minhas.

Ora choravamos em silêncio, por dentro, ora deixávamos as grossas lágrimas rolarem rosto abaixo e as enxugávamos rápido. Acredito que chorar com quem chora é uma desculpa pra lavar a alma, uma deixa para mostrar a quem chora que ele não tá sozinho, não é fraco por chorar. Chorar na frente de alguém é mostrar o quanto, de repente, você confia nele. Chorar junto é ser amigo, leal. Enxugar as lágrimas é ser humano.

Nossas realidades tão diferentes contrastavam cada vez mais com sonhos tão parecidos conforme ela me falava sobre sua vida. A bondade nos olhos de quem me contava uma das histórias mais tristes que já ouvi nestes quase três anos de instituto, as mãos magrinhas e ao mesmo tempo tão grossas, a pele maltratada, porém cheirosa, a voz embargada, porém calma, mesmo dizendo palavras com significados fora de contexto, pelo nervosismo, por querer não parecer ignorante... O cabelo seco, as unhas por fazer e mesmo assim tão limpos, da boca faltando alguns dentes sobrava amor ao falar.

Amor pela família que não é como a sonhada, mas que é amada mesmo assim. Amor pela vida mesmo que difícil. Amor pelo pouco que os pais puderam dar e ensiná-la. Amor pelos sonhos que insistem em mesmo adormecidos marcarem presença no coração. Amor e gratidão notadas num abraço apertado que recebi pelo simples fato de ouvi-la com atenção e segundo ela, olhar nos olhos sem pena mas com compaixão.

Fiquei impressionada com a preserverança em sonhar, em acreditar e na fé dessa mulher e coincidentemente pensei numa frase clássica do Pequeno Príncipe; definitivamente, a "verdadeira beleza vem do coração" e foi bom saber que nem a vida difícil fez Alice "enfeiar-se" pois com sua realidade, só seus lindos sentimentos  são capazes de me fazer acreditar num futuro melhor para suas crianças.

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