::: Um conto do conto :::

E eu acordei querendo ter certeza que não era sonho. Os olhos ainda pesados, consequência das poucas horas dormidas desde o dia anterior. Não os abri. Fui te farejando que nem bicho. Seu braço... seu obro.... pescoço....  Era você mesmo. E abri os olhos para ter mais certeza que não era sonho. Como sempre, adorei ter que me desencaixar de você driblando seus braços normalmente já pesados e sorri "sozinha" na sua repetida reação de não me deixar ir e me segurar. 

Levantei sem achar os chinelos. Olhei meu sapato de salto alto largado de qualquer jeito. Peguei o chinelo 40 e muitos que mais me parece uma prancha. Quase esbarrei nos copos que ainda continham um restinho qualquer de uma das várias doses de tequila da noite anterior. Ao lado, a garrafa, aberta, vazia... E imagino que, há alguns anos atrás, jamais iria imaginar que tequila, sonzinho, filminho e você fossem ser meu conceito ideal de uma noite perfeita.

Tropecei em um dos brinquedos do seu filho, que vivem sempre espalhados pela casa. A casa vive sempre com brinquedos espalhados, e eu adoro. Melhor uma criança ter estado com você, dormido do meu lado da cama, do que outra mulher . Com ele aceito dividir a cama, o travesseiro... você.

Pensei que deveria lavar o rosto e escovar os dentes, mas precisava conferir aquela luz que vinha da janela. O quarto escuro, dava poucos sinais de que o dia já raiava lindo. Mas eu suspeitava. As diversas manhãs de bom dia na sua casa já tinham me ensinado sobre os tons das luzes que entram no quarto. Fazia um dia lindo, eu apostava.

Você ainda dormia, no cantinho da cama, como se eu ainda estivesse lá. Engraçado que, quando a gente gosta de dividir a cama com alguém, a gente perde pra sempre a mania de dormir no meio. Ficamos sempre mais pro canto, respeitando o espaço invisível do outro. Saí do quarto devagar.  

Engraçado como lidamos bem com a diferença entre nossos sonos e resolvemos em comum acordo acordar com caras de quem quer mais cinco minutinhos, suspirando querendo xingar, e mesmo que um tenha mesmo que ir o outro o abraça firme antes de deixar ir.   

E a gente encaixa aquela conchinha, daquelas difícil mesmo de explicar. Nossos corpos tão diferentes e todas as diferenças somem, a gente fica ali, encaixadinho. Suspiro, você pergunta o que foi... respondo que nada e Deus queira que uma vez ou outra, nessa hora, a gente gargalhe e lembre feito dois idiotas que quem nada é peixe. 

Enquanto você desperta, naquele ritmo vagarosamente gostoso e só seu, eu concluo, feliz, que aquilo é um sonho. Daqueles sonhados há tempos. Construídos num longo processo de detalhamento de paixões.

Tomo banho sentindo na boca, no corpo, na alma um gosto doce do privilégio de ter te conhecido, encontrado alguém para pedir e dar colo, algo que tem chances de ser amor. A cabeça esvazia toda e qualquer preocupação, me encho de paz e concluo que não existe sensação mais gostosa se não a de poder viver um sonho, em vez de só sonhar.

Ninguém disse que seria fácil. E a gente, sem cogitar que fosse impossível, fomos lá e fizemos. E a gente se despede desejando bom dia um ao outro sabendo que amanhã ou no mais tardar logo depois dele, tem mais. A gente já não consegue ficar muitos dias sem nossas confissões e declarações tímidas, sem os momentos que parecem ser só nossos e de fato são.

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